domingo, 22 de agosto de 2010

Fraternidade se ensina


Por Lucia Rosenberg

Pesquisas afirmam que irmão é antidepressivo. Será? Ô coisa boa, saber que se pode contar com alguém incondicionalmente. O amor incondicional não é da natureza de toda relação amorosa – nem se deve esperar isso de qualquer amor. O verdadeiro e profundo amor fraterno é desses: precisou? Vai ter: escuta, cumplicidade, conselho, companhia, empréstimo, carona ou uma dura, também.

É incondicional, mas não necessariamente inato e instintivo como o de mãe. Nada disso. Pense bem: a chegada do irmão é mesmo uma imensa ameaça, é desconhecido o bebê em si e o que ele representa, que lugar vai ocupar e que espaço vai sobrar para o mais velho. Que figura redonda e mais lenta vai tomando conta da sua mãezinha de antes, e quantos impedimentos vão crescendo à medida que a chegada do bebê se aproxima?

Começa aí a importância da atenção dos pais a essa tensão do primeiro filho. Porque vai mesmo demorar um longo tempo até que esse bebê se torne um parceiro, numa relação que valha a pena, que divirta e acrescente algo de bom na vida do maior. Até lá, tem pela frente muitas horas diárias da sua mãe, dedicadas àquela criatura tão desinteressante, estranha e pequena. Quando o ritmo da lida diminui, aquele bebê começa a florescer no sorriso banguela, nas carnes rechonchudas de bochechas e perninhas balançantes que atraem mais a atenção dos adultos - onde antes reinava o mais velho.

Ainda fica pior pro seu lado quando o irmão ganha autonomia de deslocamento – é o fim das construções de blocos, dos maços de figurinhas separados, da escola montada com toda a classe sentada e pronta pra brincadeira começar – o fofinho destrói tudo que vê, baba em tudo que toca, e os adultos acham graça... Mais uns anos e o mais novo descobre como irritar o maior, já aprendeu que na força ele perde, então seus recursos são mais psicológicos. Mesmo assim, em geral, é o maior que leva a bronca, quando acaba por perder a paciência e descer a mão no chatinho – que chora uma dor muito maior que a bordoada que levou. E tem pais que exigem que o mais velho seja exemplo, que proteja sempre o menor porque ele é grande – mesmo que só tenha quatro anos! É mais velho, mas demora muito ainda pra ser grande, não esqueça.

Recomendo que os pais interfiram o mínimo possível. Quanto mais nos metemos, maior a chance de sermos injustos – e isso sim, provoca a raiva. Comparar filhos, então, é o proibido número um. Jamais. Cada um é único e tem seus dotes e limites, é só deixar que se revelem, respeitar, apoiar e estimular cada um a tornar-se o que é. Isso cria felicidade na pessoa e na vida que ela vai cultivar. Ser solidário ao simples fato de que, às vezes, irmão pode ser muito chato ajuda a tolerar e enxergar além disso. Ninguém é perfeito – perfeição, aliás, nem existe. Mesmo. Compreender e aceitar isso ajuda nos vínculos amorosos, pois aprende-se que não é preciso agradar sempre para ser amado. Outro mandamento é jamais estimular a delação – irmão nunca entrega irmão, jamais peça isso a um filho seu se integridade, união e ética forem valores importantes para você.

Os pais também ajudam a fortalecer os laços entre irmãos se permitirem que sua casa se torne um lugar para receber os amigos dos filhos. Dessa forma, as crianças crescem juntas, a intimidade vai se estabelecendo entre todos (os pais sabem com quem seus filhos andam) e as turmas acabam se misturando. Muitas vezes os amigos é que mostram ao irmão os atributos e graças do outro. As famílias que têm por hábito reunir-se para uma refeição diária também ajudam a cultivar a amizade entre todos, pois ali se contam novidades, embates e projetos. Trocam ideias e, juntos, encontram soluções. Então, começam a entender que a união faz a força, mesmo.

As vantagens de ter irmãos não cabem numa coluna. Que irmã ensina irmão a lidar com TPM, enquanto irmão traduz para a menina o significado de alguns grunhidos da espécie, irmã dá colo e subjetividade, irmão dá força e estratégia. Continuo a pensar mais e diferentes delícias da fraternidade, esse respaldo afetivo efetivo que, na verdade, nenhum antidepressivo desse mundo pode oferecer. Irmão é muito melhor.

Texto extraído do site:

http://estilo.uol.com.br/comportamento/

5 comentários:

Fernanda Reali disse...

Adoro este texto, já o tinha lido e concordo. Meus filhos têm uma ano e meio de diferença, se amam, são supercompanheiros, fazem tudo juntos, desde que acordam até a hora de dormir. Postei um texto sobre as diferenças entre o 1°, 2° e 3° filhos bem divertido.

bjs

Alma Inquieta disse...

É isso mesmo, fraternidade se ensina. Que lindo quando os irmãos se dão bem...!

Tenho dois com diferença de oito anos e adoram-se...

Gostei do teu blog.

Convido-te a que me visites.

Desde Portugal já te sigo e te envio um Beijo.

Boa semana.

Sergio disse...

No conocia el texto, pero es verdad, con la convivencia se aprende... todo en la vida se aprende con el ejemplo...

Me gustó tu blog.

Te invito a que visites mi blog que também se escreve em português.

Te dejo saludos desde Argentina,

Sergio.

*Mundo Particular* disse...

Interessantissmo texto. Adorei de verdade.
Obrigada por vir me visitar e volte sempre que
quiser. um imenso bj pra vc e boa noite!!

C. Mantovani disse...

olá, td bem?
Passei por aqui e achei o máximo seu blog, parabéns!
Já estou te seguindo!
Dá uma espiada em meu humilde blog...me segue tbem, vou adorar ter sua presença por lá!
bjão

http://falarfrancamente.blogspot.com/

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