domingo, 26 de setembro de 2010

Primeiras letras parte II




Maturidade neurológica

Do ponto de vista pedagógico, há vários recursos para introduzir a criança ao mundo das letras desde muito cedo. Mas é perfeitamente normal que, aos cinco anos, ela ainda não tenha chegado ao ponto de desenvolvimento neurológico que propicie a sistematização da linguagem escrita.

"O desenvolvimento neurológico não é algo extremamente uniforme e depende de fatores biológicos e ambientais. Há crianças que atingem esse desenvolvimento um pouco antes ou um pouco depois, e isso não significa uma maior ou menor capacidade intelectual ou cognitiva", afirma Luiz Celso Pereira Vilanovas, chefe do setor de neurologia infantil da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Segundo o neurologista, dá para afirmar que, com oito anos, a criança está pronta para ser alfabetizada. "Mas a chance de a criança não estar pronta aos cinco anos para a alfabetização, do ponto de visto do desenvolvimento neurológico, existe e não é desprezível."

Ritmos diferentes

A questão mais importante é a escola estar preparada para lidar com os diferentes ritmos de desenvolvimento. "Se a escola tenta acelerar o processo e discrimina as crianças que não conseguem se alfabetizar nessa faixa etária, é prejudicial. Essas crianças não estão prontas, mas vão chegar ao mesmo lugar daqui a um, dois anos, e isso é normal", diz Vilanovas.

Mauro Muszkat, chefe do Nani (Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil Interdisciplinar) da Unifesp, observa que há uma cobrança cada vez maior para as crianças se alfabetizarem mesmo antes de elas terem maturidade neurológica para o que é exigido.

"A maturação depende de vários fatores, mas, em termos gerais, antes dos seis anos e meio muitas crianças ainda não completaram a lateralização da linguagem, por exemplo", diz Muszkat. A lateralização significa que a função linguística se concentrou no lado esquerdo do cérebro e as funções não-verbais, como o significado emocional das palavras, no lado direito, o que permite lidar com a linguagem escrita de modo mais simbólico e não apenas de modo mecânico.

Aos cinco ou seis anos, também é normal a criança não ter maturação motora para uma escrita estável. "Com a cobrança formal para se alfabetizar e sem ter amadurecido esses aspectos, a criança fica estressada e perde a motivação, além de poder achar que é menos inteligente do que os outros, o que não é verdade", diz.

Sistema visual

Em relação à maturação do sistema visual, ela também só vai se completar por volta dos sete anos. Porém, isso não é um impedimento para a alfabetização, segundo Paulo Schor, professor-adjunto de oftalmologia da Unifesp. "Aos quatro anos e meio de idade, o olho humano já está preparado para a visão de detalhes."

O que pode acontecer na criança pequena é ela não ter discernimento visual para letras unidas, como nas palavras escritas na forma cursiva. Mas o mais importante, segundo o oftalmologista, é fazer o exame de acuidade visual quando o processo de alfabetização for iniciado, ocorra ele mais cedo ou mais tarde. "Além da possibilidade de corrigir eventuais problemas de visão, isso evita que eles sejam um obstáculo à aprendizagem."

Dicas para tornar o processo de alfabetização mais tranquilo

Ficar muito ansioso para ver "resultados" da alfabetização pode atrapalhar o processo; não insista para a criança escrever seu nome ou ler textos, se a vontade de fazer essas coisas não partiu da própria criança

Ao realizar atividades com os filhos relacionadas à leitura e à escrita, não as faça por obrigação, mas por prazer, por exemplo, lendo para eles histórias que realmente aprecia. Contar aos pequenos histórias mediadas pelo livro (ou seja, leitura em voz alta) é uma forma de os pais tornarem o processo de alfabetização que elas viverão na escola significativo

Escrever com letras "erradas" (por exemplo, "kasa") faz parte do processo de construção da escrita, ajuda a criança a entender como ela funciona; se os pais corrigem sistematicamente toda a lição de casa da criança, podem atrapalhar o processo pedagógico

O melhor é que a letra cursiva seja introduzida depois de a criança já estar alfabetizada. Em geral, é por volta dos sete anos que ela já tem a apropriação motora de movimentos específicos para a "letra de mão". Não há porquê os pais estimularem esse tipo de escrita antes dessa idade

Na faixa etária que vai da educação infantil ao início do ensino fundamental, aprender a ler e a escrever um pouco mais cedo ou um pouco mais tarde não significa ser mais ou menos inteligente; comparar o ritmo de diferentes crianças não contribui para o sucesso da alfabetização


Fonte:

Folha de S. Paulo
Edição: F.C.
18.06.2009




3 comentários:

Elisa Victor disse...

Obrigada pelo comentário , muito boa a máteria, estou no 6º Périodo de Pedagogia e essa informção vai ajudar muito a cadeira de português que estou pagando esse périodo. Parabéns!!

C. Mantovani disse...

Oi querida....tomei a liberdade de lhe propor uma brincadeira....passa lá no meu blog...e participe conosco dessa empreitada interessante??
Bjo meu...

Michele P. disse...

Carmem

Adorei a visita! Vim conferir o seu espaço e já puxei a cadeira e fiquei por aqui. Voltarei para outros cafés, posso?

Um abraço!

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